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Em muitos países, principalmente na Europa, os partidos verdes ganharam espaço no cenário político nas últimas décadas
Renan Dissenha Fagundes
A esperada saída da senadora Marina Silva do PT, anunciada na quarta-feira (18), e sua provável transferência para o PV é acompanhada pela discussão em torno da reestruturação do programa dos Verdes brasileiros. Ao longo das últimas décadas, os partidos verdes pelo mundo adaptaram suas reivindicações e alianças às demandas regionais e, em muitos países, ganharam espaço e força no cenário político.
Em 2001, o Partido Verde alemão – primeiro dos partidos verdes a atingir relevância nacional em seu país de origem – conseguiu fechar um acordo para eliminar o uso de energia nuclear na Alemanha: até 2020, a utilização civil desse tipo de energia deve ser zero. Uma vitória importante para um grupo político que desde sua fundação, em 1980, afirmava-se contrário ao uso de energia nuclear. Mas a conquista não veio sem ônus: como parte da aliança do governo, os parlamentares do partido tiveram que apoiar o chanceler Gerhard Schröder na Guerra do Afeganistão. Muitos Verdes criticaram a ação: o pacifismo foi um ponto-chave na plataforma que fundou esses partidos, durante as décadas de 70 e 80, e é uma das políticas que os caracterizam ainda hoje, junto com a defesa do meio ambiente, da justiça social e da democracia direta.
Só que muitos líderes descobriram que para conseguir avanços, às vezes, algumas concessões deveriam ser feitas. No livro The evolution of green politics, publicado em 2002, o autor, Jon Burchell, cita a fala de um ativista europeu dos Partidos Verdes em 1995 que fala o seguinte: “No começo, dizíamos que nunca trabalharíamos com os outros e que os outros nunca iriam trabalhar conosco. Hoje nós já negociamos com governos, nós damos algo para eles e eles nos dão outras coisas. Isto é mais realista politicamente. O partido quer mudar coisas, e se não cooperarmos, nunca mudaremos nada. Vamos só bater nossas cabeças contra um muro de tijolos. Isso não leva a lugar nenhum”.
E os Partidos Verdes europeus não mudaram apenas por descobrir a política de verdade, eles também modernizaram suas propostas, e cresceram – muito em alguns lugares, como a Alemanha. Nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, o Partido Verde Europeu, grupo pan-europeu formado por partidos de diversas nacionalidades, conseguiu eleger 46 eurodeputados, liderados pela Alemanha, com 14 cadeiras, e a França, com 13, além de Áustria, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, Grécia, Itália, Luxemburgo, Holanda, Espanha, Suécia e Reino Unido. A coligação formada com a Aliança Livre Europeia (EFA, na sigla em inglês) – um grupo de partidos que lutam por independência política, ou alguma forma de descentralização, de seu país ou região – e, mais recentemente, com o Partido Pirata sueco, possui 55 cadeiras, o que a torna a quarta maior força no Parlamento, atrás apenas da Aliança dos Liberais e Democratas pela Europa (84 deputados), da Aliança dos Socialistas e Democratas Progressistas (184 deputados), e do Partido Popular Europeu, um agrupamento partidário democrata cristão e conservador que possuiu a liderança do parlamento com 265 deputados.
Do ponto de vista da modernização das propostas, os Verdes foram a primeira força política europeia a defender a legalização do compartilhamento de arquivos pela internet. Em 2008, eles lançaram uma campanha destinada a esclarecer que downloads ilegais são diferentes de assaltos, afirmando que “fazer uma cópia é totalmente diferente de roubar”. Foi também a coligação Verdes-EFA que defendeu uma emenda contra a lei de reposta gradual, nome dado à legislação proposta pelo governo francês que previa o bloqueio de acesso à internet de qualquer usuário que supostamente tivesse violado direitos autorais depois de três notificações, sem direito de resposta. Depois que algumas mudanças comprometeram a proposta anti-reposta gradual, os Verdes reintroduziram o texto original da emenda, que acabou aprovada, onde se fala que o acesso à rede não pode ser cortado sem uma decisão judicial prévia.
A senadora Marina Silva, que saiu do PT depois de mais de 30 anos de militância, deve ser a candidata do PV à presidência da República no ano que vem. Em entrevista a ÉPOCA, ela afirma que sabe que os partidos precisam evoluir. “O modelo original do PV foram os partidos verdes europeus. Nesses países, as questões essenciais foram atendidas e fez-se uma luta de defesa do verde nos termos clássico”, disse. “Hoje, o principal desafio deles é a sustentabilidade. É preciso buscar uma ressignificação do PV, universal, em função da crise climática, sem deixar de dar respostas em todos os setores: economia, agricultura, energia, infraestrutura, ciência e inovação tecnológica”. E dentro do PV já há um início de modernidade: Gilberto Gil, defensor mundial da liberdade de informação, é filiado ao partido desde 1990, e já sinalizou que poderia ser candidato a vice em uma eventual chapa com Marina.
No Brasil, como no resto da América Latina e também na África, no Leste Europeu e em alguns outros países da Europa, os partido verdes ainda são partidos de pouca relevância. Alguns exemplos: o blogueiro português Miguel Caetano escreveu em seu blog que é uma “pena que em Portugal o Partido Ecologista os Verdes (PEV) seja um mero satélite do Partido Comunista Português”. Dariusz Szwed, líder do partido Zieloni 2004, fundado há 6 anos na Polônia (Zieloni é verde em polonês), disse em entrevista ao jornal holandês NRC Handelsblad que “tem sido uma longa marcha” para eles, um partido que nunca conseguiu eleger ninguém, “nem em nível nacional e nem em nível local”. Essas são duas realidades distintas: uma é a do partido antigo (o PEV português foi fundado em 1982) que não conseguiu crescer e se tornou apenas um coadjuvante na política nacional; a outra é a de partidos em que a democracia é relativamente recente, caso das nações que faziam parte da União Soviética – a atual república polonesa teve início em 1989.
O PV brasileiro foi fundado em 1986. O posto mais alto que algum membro do partido ocupou no governo brasileiro foi o de ministro da Cultura, cargo que pertenceu a Gilberto Gil durante cinco anos e meio. Embora Gil faça parte do PV há quase 20 anos, o Ministério foi lhe entregue muito mais por sua trajetória pessoal do que por qualquer mérito do partido. Outro expoente do PV é Fernando Gebeira, deputado federal pelo Rio de Janeiro, que quase foi eleito para a prefeitura do Rio no ano passado. Gabeira, ao contrário de Gil, já rejeitou uma possível posição de vice-candidato à presidência. “Não há a mínima possibilidade de eu ser vice”, disse a ÉPOCA. A última vez que o PV teve um candidato à Presidência da República foi em 1998, quando o escritor e jornalista Alfredo Hélio Syrkis ficou em sexto lugar, com 212 mil votos. Syrkis afirmou na época que se candidatou apenas para divulgar as ideias do partido. O PV deve ter ambições maiores que essa em relação à candidatura de Marina em 2010. A entrada da senadora na corrida eleitoral altera o cenário de uma disputa polarizada entre o governo (com a petista Dilma Rousseff) e a oposição (com o tucano José Serra).
19/08/2009 – Atualizado em 19/08/2009 – 18:55
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